domingo, 12 de fevereiro de 2012

BLADE RUNNER NO JARDIM PAULISTA

Chuva, fumaça, neon e Roy Batty (Rutger Hauer)

       Nasci em 1972, mas durante toda esta década eu não passava de um moleque muito louro e cabeçudo, com cabelos em forma de capacete, que jogava bola de mocassim sem meias e tinha uma cacharrel com um pinguinzinho no peito que fazia “Fiu Fiu” quando pressionado. Estilo, estilo mesmo eu desenvolvi foi nos anos 80. Usei calça de popeline da OP, relógio Champion que trocava pulseira, camiseta lilás, verde limão e laranja. Tinha carteira emborrachada, cabelo raspado e uma franja oxigenada que ia até o queixo. Era um “Manual dos anos 80” ambulante. Cada filme, moda, brinquedo, música daquela década eu assisti, segui, brinquei e escutei.
            Hoje os anos oitenta são pintados como uma década fútil, vazia e yuppie. Não tinha a inocência romântica dos anos 50, o charme revolucionário dos sessenta, nem a porralouquice disco dos 70. Injustiça. Nada mais nada menos que a melhor produção cinematográfica de todos os tempos pertence aos achicalhados anos 80. 
         Baseado num pequeno romance de Phillip K. Dick, “Blade runner – o caçador de andróides” conta a história de Deckard, um policial que tem por missão capturar quatro andróides foragidos que são mais humanos que os próprios humanos. Como se não bastasse o incrível roteiro, o visual é igualmente sensacional. Los Angeles decadente, escura e apinhada de gente falando uma mistura de japonês, espanhol e inglês. A combinação da chuva onipresente e da fumaça dos carros com o brilho do neon resultam num efeito belíssimo, emoldurado pela trilha sonora de Vangelis. Inesquecível. Mas a verdade é que eu contei tudo isso porque esta semana tive uma espécie de epifania bleidirrânica
      Chovia uma chuva bíblica quando saí da garagem e ganhei a Rua Batatais. Coincidentemente, o CD tocava “Blade runner end Theme” quando cheguei na esquina e vi, por entre os pingos, uma enorme placa de neon escrito “Rodoviária Jardim Paulista”. Entre os dentes, declamei:

“Vi coisas que vocês, homens, nem imaginam.
Naves de guerra em chamas na constelação de Orion.
Vi raios-C resplanderem no escuro, perto do Portal de Tannhaüser.
Todos esses momentos se perderão no tempo...como lágrimas na chuva.
Hora de morrer.

            E então, tive vontade de me ajoelhar na rua e de soltar uma pomba branca, como o robótico Roy Batty (vivido por Rutger Hauer) fez no filme. Mas tudo o que fiz foi arrancar com o carro, feliz por poder ver beleza em coisas tão prosaicas.

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