sábado, 11 de junho de 2011

O CÉU DE ÍCARO É O MESMO QUE O DE GALILEU

Lá pelo começo da década de oitenta a revista Recreio ensinava que, para fazer seu próprio arco-íris, você deveria ligar um esguicho numa tarde ensolarada, ficar de costas para o sol, pressionar a saída da mangueira e, com a água saindo em pequenas gotículas num ângulo de aproximadamente quarenta e cinco graus, você teria seu próprio arco-íris. A revista explicava ainda que cada gotícula funcionava como uma espécie de prisma que decompunha a luz e, graças ao ângulo com que o sol incidia, formava-se o belo arco multicolorido. Como de praxe, domingo de manhã comprei na “Vamos ler” meu exemplar, juntamente com os gibis do “Recruta Zero” e o “Almanaque Disney”. Fiquei excitadíssimo com a possibilidade de ter meu próprio arco-íris. Mas a experiência teria que esperar até a próxima sexta, o dia da faxina. Impensável fazer molhadeira noutro dia qualquer. O resultado eu conto no parágrafo final, porque o assunto principal não é meu arco-íris privado, mas sim a frase que despertou a lembrança desta história.
            “O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu”. Não sei se foi alguém que postou em algum lugar na internet ou se eu estava no carro quando escutei este verso da música dos Paralamas do Sucesso. Não importa. O fato é que ele me incomodou como um espinho na alma durante a semana toda até que eu consegui racionalizar o motivo. E quando eu consigo racionalizar o motivo, o espinho sai da alma causando alívio imediato. Foi por isso que eu me lembrei da Revista recreio, de faxinas e de uma velha polêmica resgatada pelo cerebral Richard Dawkins, em seu livro-manifesto apaixonado pela Ciência chamado “Desvendando o arco-íris”.
            Resumindo muito brevemente. Quando Sir Isaac Newton divulgou suas descobertas sobre a composição da luz, o poeta John Keats escreveu um poema belíssimo, diga-se de passagem, onde acusou o físico de friamente “desvendar o arco-iris”, como se decifrar um enigma da natureza, acabar com seu “mistério”, destruísse sua beleza. (Mais detalhes em http://ohomemhorizontal.blogspot.com/2007/06/keats-versus-newton.html). Do mesmo modo, o céu carregado de mitologia, onde tudo é possível, seria muito mais belo que o céu matemático de Galileu, com suas órbitas previsíveis e periodicidade maçante. É preciso ser ignorante para maravilhar-se.
            O fato é que a sexta-feira chegou. Cheguei da escola, engoli o macarrão com atum e fiquei só de cuecas. Meu pai já havia retirado o Opalão da garagem. Minha mãe já espalhava água pelo terraço: molhadeira oficial, consentida. Com a desculpa de ajudá-la, tomei o esguicho e fui para a calçada. Segui as instruções da “Recreio” e eis que ele surge, entre a casa do Tio Carlão e o córrego da figueira: meu próprio arco-íris. Feliz da vida, espalhei uma generosa porção de OMO na garagem e, esquiando com minha avantajada barriga através do espaço antes ocupado pelo carro, comemorei o fato de dominar a arte e os fundamentos de como fazer os tais arcos multicoloridos. Até hoje, com a desculpa de regar as plantas ou lavar a sacada do meu apartamento, faço meu arco-íris. Que é o mesmo de Dawkins, Newton, Keats, Ícaro e Galileu.

3 comentários:

  1. Legal! Como a gente curtia pequenas coisas, mas interessantes assuntos! É como a molecada hoje, rsssssss. E agora tou assistindo "Armação Ilimitada"!!!!

    FBC

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  2. Henrique Battaglia26 de junho de 2011 20:27

    Muito legal irmão ! Lembrei de nossas conversas embaladas a "voka" Sputinik rótulo verde.......

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  3. Rodrigão, não sei se você aceita pedidos, mas aqui vai: continue com suas crônicas que relatam sua infância. São suas melhores! Essa, em particular, ficou ótima! Parabéns!

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